12/10/2017 | 15h21m

Opinião

André Costantin: Maradona

Hoje é um dia especial nestas margens: a Argentina comemora a sua teatral classificação para a Copa do Mundo da Rússia

Vi Maradona no centro de Paso de Los Libres, do outro lado da fronteira. Naquele cair da tarde, a pequena cidade pampeana respirava sambas de enredo a seu modo castelhano, de ares e ritmos soprados dos carnavais dos confins do Brasil. Vi então Maradona de canto de olho, na parada do ônibus. Foi rápido. Parei meia quadra adiante.

No exato instante, vejo no retrovisor, Maradona embarca no ônibus. E vai para algum bairro de periferia, onde a cidade se esmigalha em casebres e seixos às margens do Rio Uruguai. E o tempo passou, soprou o minuano cortante dos rostos pobres do pampa.

Despede-se o inverno. Hoje é um dia especial nestas margens: a Argentina comemora a sua teatral classificação para a Copa do Mundo da Rússia, com três gols de Messi – um quase anti-Maradona, herói nos novos velhos tempos argentinos. Atravesso a ponte em arcos que liga Uruguaiana a Libres já sem a pretensão de reencontrar aquele Maradona. Ele tinha o rosto queimado do sol do campo, de traços indiáticos tão comuns do lado de lá como as feições morenas das margens de cá – Maradonas e Pelés. No rosto, no lado direito, à sombra da luz laranja da parada de ônibus, via-se uma tatuagem de Maradona.

Pelas ruas de Libres, no ambiente do jogo de vida ou morte da Argentina, vamos à procura do homem da tatuagem de Maradona. Informantes nos mandam para a vila de Madariaga, que jamais verá o asfalto chegar. Lá dizem que Maradona se abancou para os lados da feira no entorno do singelo estádio municipal.

Toda busca encontra algo. Nos deparamos com um outro homem, indiático também, vendedor de badulaques, arranchado no muro do estádio. Nasceu em Quilmes, arredores de Buenos Aires. Conta ter jogado contra Maradona aos 12 anos de idade, nas peneiras colegiais daquele tempo. "A bola é jogo, é alma, pensamento, ideia... Alguns são tocados por uma vara mágica do futebol; eu não fui". Norberto o nome dele, um amante do Brasil: "Pelé foi o rei". Nos fala do Maradona de Libres, seu amigo. Parece que deu mole, foi em cana. Na delegacia, a policial despista, com simpatia.

Restou a memória daquele rosto anônimo com o rosto de Maradona, confirmando uma impressão que tive certa vez em uma outra cidadezinha perdida da Argentina, quando então me deparei com um cortejo fanático de tambores e gritos abaixo de zero grau, vindo do nada e indo para o centro do nada na noite, festejando a vitória de um time qualquer de quinta divisão: o país do futebol nunca terá sido o Brasil. O país do futebol é a pátria de Maradona.